Cuidados de saúde primários 2000 - De Alma-Ata a Harry Potter: um testemunho pessoal

Quando, finalmente, entendemos a importância dos cuidados de saúde primários, procuramos construí-los à maneira das antigas catedrais góticas dos velhos burgos medievais: desenhadas por poucos, construídas por alguns, frequentadas obrigatoriamente por todos os demais. Através de todo este esforço, aprendemos. Os cuidados de saúde primários acontecem todos os dias: quando as pessoas comuns aprendem ou fazem alguma coisa de útil à sua saúde e à dos que lhes estão próximos; sempre que comunicam com alguém habilitado a ouvi-los e apoiá-los sobre as suas dúvidas, medos, fantasias, angústias, preferências ou necessidades de saúde.
Para assegurar o reforço dos cuidados de saúde primários necessitamos de conhecimentos renovados, «teorias de acção» mais elaboradas, alguma sabedoria e muita imaginação.

A grande ideia

A partir principalmente dos anos 30 do século passado, o progresso nos cuidados de saúde aparecia fortemente associado ao desenvolvimento das especialidades médicas. Uma compreensão cada vez mais precisa dos segredos do corpo humano permitiu uma crescente capacidade para diagnosticar e intervir sobre a doença. Os hospitais, particularmente os das cidades de maior dimensão, enriqueceram-se com novos saberes e com as técnicas que lhes correspondiam — estas passaram a ser uma parte inseparável da sua identidade. Mosaicos cada vez mais elaborados de serviços especializados, os hospitais passaram a ser o local privilegiado para o exercício da medicina e a imagem amplamente dominante dos cuidados de saúde da época.